História da Cidade

por adm publicado 09/02/2026 14h55, última modificação 13/02/2026 19h16
História da cidade de Cambuquira, Minas Gerais

A cidade de Cambuquira se encontra em uma região de baixas elevações da Mantiqueira, em um vale cercado por morros e colinas, e tem sua história ligada a um sistema aquífero com idade estimada em mais de 40 mil anos e profundidade que pode chegar a 5 km.

No Circuito das Águas, nas cidades de Cambuquira, Caxambu, Conceição do Rio Verde, Lambari e São Lourenço, os aquíferos são fraturados, permitindo a circulação da água por meio de fissuras nas rochas. Esses aquíferos são sistemas dinâmicos onde rochas, água e ar interagem, influenciando as características da paisagem e da vida local.

Localizada em área de declives e abundante em águas minerais, Cambuquira está situada em uma depressão alongada, onde as águas do aquífero emergem naturalmente por fissuras nas rochas, formando brejais.

Em alguns pontos, essa água entra em contato com diques de rochas alcalinas, enriquecendo-se com minerais. Quando atravessa formações que liberam dióxido de carbono (CO₂), torna-se carbogasosa, adquirindo propriedades que há séculos são reconhecidas na região.


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As origens de Cambuquira

A história de Cambuquira está intimamente ligada às suas fontes hidrominerais, conhecidas por suas propriedades terapêuticas e medicinais desde antes da colonização. Situada na Serra da Mantiqueira, em uma região rica em águas subterrâneas carbogasosas, a área era habitada por povos indígenas, como os Puris, Botocudos e Araris, que possivelmente utilizavam essas águas para fins curativos.

Para esses povos, as águas eram parte de um sistema cosmológico que via a natureza como um todo interconectado.

O nome "Cambuquira" reflete essa relação. Uma das interpretações mais aceitas vem do tronco etnolinguístico tupi, onde "cambu" significa "mamar" ou "beber do seio", e "kira" significa "jovem". Juntos, formam a expressão "beber do seio jovem", associando as águas minerais ao seio materno, simbolizando vida, cura e nutrição. Outra interpretação, ligada ao tronco Macro-Jê, sugere que o nome deriva de "Cambuchi", termo que designa um recipiente usado para armazenar água e alimentos, refletindo a geografia da região, que se assemelha a uma cumbuca cercada por montanhas. A cumbuca simboliza tanto a geografia da região quanto a prática ancestral de coletar as águas minerais que surgem espontaneamente na localidade, prática ainda presente na população residente, autodenominada “Povos das Águas”.

Assim, além de descrever a conformação física ou geoespacial do território, a palavra “Cambuquira” pode trazer um sentido geopolítico, sugerindo que a área foi historicamente rota de peregrinação e de cura para povos indígenas.

Segundo essas releituras dos topônimos, a interpretação popular de Cambuquira como “broto de abóbora”, famosa em Teodoro Sampaio, pode não ser a mais correta. A grafia seria “Jerimumquira”, palavra tupi para abóbora.

 

A colonização e as transformações

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Com a chegada dos colonizadores, a ocupação da região mudou significativamente. Os bandeirantes, em busca de ouro e pedras preciosas, avançaram sobre o território, deslocando os povos indígenas e explorando os recursos naturais, incluindo as águas minerais. No século XVIII, com a distribuição de sesmarias pelo governo português, surgiram as primeiras fazendas na Serra da Mantiqueira, que dependiam do trabalho escravizado de indígenas e africanos.

As terras de Cambuquira foram apropriadas pela família Leme da Silva Goulart, descendentes de bandeirantes, e vinculadas ao Arraial de São Cipriano, mais tarde chamado de Campanha da Princesa da Beira. A região era marcada por fazendas como Estiva do Barreiro, Boa Vista do Barreiro, Mato Grosso do Barreiro e Congonhal do Barreiro, voltadas à agropecuária e à cafeicultura.

A origem da cidade está ligada mais propriamente às fazendas Boa Vista do Barreiro e a Mato Grosso do Barreiro, deixadas como herança para escravizados pelas irmãs Anna Angélica, Joanna e Francisca da Silva Leme Goulart.

A Fazenda Boa Vista do Barreiro, na região nas proximidades do hoje Parque das Águas, era pertencente às irmãs Anna Angélica e Francisca da Silva Goulart, uma terra que se destacava justamente por abrigar as fontes de águas minerais, que abrigavam as famosas "águas virtuosas".

As irmãs Anna e Francisca da Silva Leme Goulart, proprietárias da Fazenda Boa Vista, deixaram as terras onde estavam as fontes como herança para seus ex-escravizados, com a condição de que não fossem vendidas, apenas repassadas por herança.

Em 1860, o vereador Cândido Inácio Ferreira Lopes iniciou o processo que culminaria na desapropriação das terras. Ele enviou ofícios, junto com caixas de água engarrafadas artesanalmente, ao presidente da Província de Minas para destacar o valor medicinal das fontes, alegando que as águas continham ácido carbônico e ferro, com propriedades terapêuticas, defendendo a necessidade de desapropriação para explorar esse potencial.

No entanto, em 1862, o Estado desapropriou a localidade, alegando utilidade pública devido às propriedades medicinais das águas. Relatos orais indicam que os ex-escravizados foram expulsos sem compensação, perdendo o direito às terras que lhes haviam sido concedidas.

A disputa envolvia tanto interesses econômicos e medicinais, quanto questões raciais, pois as terras estavam sob a posse de negros alforriados, que, antes da abolição, não tinham, segundo os interesses da época, o direito de possuir terras que, naqueles tempos, já eram muito ambicionadas. Isso reforçou processos de injustiças históricas que não permitiram que a vontade das três irmãs fosse efetivada.

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O desenvolvimento urbano

A descoberta de fontes de água mineral na propriedade atraiu muitas pessoas em busca de suas propriedades terapêuticas.

Em 1872, fundou-se o Arraial de Cambuquira, erigido em distrito de Campanha. Em 1874, o arraial de Cambuquira já contava com 53 edificações. As terras da antiga Fazenda Boa Vista do Barreiro foram adquiridas pelo Estado de Minas Gerais. Em 1880, Cambuquira foi elevada à categoria de freguesia e, em 1884, anexada ao município de Três Corações do Rio Verde. A urbanização se intensificou a partir dos anos seguintes, com a atuação do engenheiro Américo Werneck e do químico francês Charles Berthaud, que isolou as fontes minerais, e a implementação de serviços como os correios (1892) e a estação ferroviária (1894), expandindo ainda mais a população. Por fim, a inauguração do Parque das Águas, em 1899, consolidou Cambuquira como destino terapêutico.

Outrossim, a cidade de Cambuquira foi uma das primeiras cidades projetadas do estado de Minas Gerais, com ruas largas, calçadas amplas e arborização selecionada. Na primavera, as flores de centenas de árvores perfumam a atmosfera da cidade, criando um cenário singular.

O município de Cambuquira foi oficialmente criado em 12 de maio de 1909, e sua sede foi elevada à categoria de cidade em 10 de setembro de 1923. Em 1970, recebeu o título de Estância Hidromineral, reforçando sua importância histórica ligada às águas minerais carbogasosas e confirmando sua vocação para o turismo e a saúde.

Cambuquira mantém sua tradição como estância hidromineral, preservando suas fontes naturais e sua história como espaço de cura e de conexão com a natureza.

Formação administrativa e gentílico

  • Criação do distrito: 30 de novembro de 1880, com a denominação de Vila de Cambuquira, subordinada ao município de Três Corações do Rio Verde.
  • Elevação à vila: 30 de agosto de 1911, desmembrando-se de Três Corações do Rio Verde.
  • Elevação à cidade: 10 de setembro de 1925, com a denominação de Cambuquira.
  • Alteração toponímica: 7 de setembro de 1923, quando a Vila Cambuquira passou a ser chamada apenas de Cambuquira.
  • Gentílico: Cambuquirense